Se estiver sozinha tanto faz ser nesta cidade, na vila onde moro em Portugal, ou num hostel em Berlim. Sou só mais uma anónima no meio dos 7 mil milhões de pessoas que habitam este planeta. Por isso não será assim muito absurdo se eu disser que até gosto disso, pois não?
Cada um de nós é uma gota num oceano imenso de pessoas, mas cada um tem também a sua própria direção, seguindo muitas vezes a corrente arrastada pelo fluxo dos que o rodeiam - a sua família, os conhecidos, os amigos e outras tantas pessoas que vão aparecendo – só porque normalmente é mais fácil, mais lógico, com menos obstáculos. Mas se cada um fizer valer as suas ideias sem ter em conta nada que possa aprender com os outros, continuará tão só como se estivesse sozinho no mundo.
Estar sozinho não é ser anónimo. Ser anónimo é simplesmente não ser reconhecido por ninguém. É estar só com os os seus pensamentos captando a essência dos locais, sentir a ‘alma’ dos que habitam ou habitaram aquelas ruas, que viveram aquele ambiente, que deixaram uma parte de si por lá, ou que construíram o seu espírito com partes da cidade. Já me senti assim muitas vezes, como se estivesse a absorver a vida de outras pessoas, de outros tempos, outras eras. Sinto que estar sozinha até é uma benesse, porque não me distraio tanto.
Gosto de ser anónima, de passar despercebida, de ser eu no meio de outros. No entanto, esse anonimato acaba por quebrar-se estando algum tempo no mesmo lugar e aí a vida começa a rolar. Quando os desconhecidos começam a tornar-se conhecidos vamos começando a nossa história e deixamos de ser anónimos. Passamos a seguir o nosso caminho menos sozinhos, com gente que gosta de nós e nos vai acompanhando em pedaços do nosso caminho. Os conhecidos passam a ser amigos e vão integrando o o leque de pessoas que também nos transformam e nos criam como pessoas.
E eu sei que gosto muito de pessoas, das suas histórias, de conhecer as suas vidas, os seus fracassos, sucessos, emoções, o que as move e o que é importante para as fazer acordar todos os dias de manhã. Se possível gosto de saber isso ao vivo, ouvir os sons das palavras a serem ditas, e as emoções a aparecerem ao canto da boca e na curvatura das pestanas. Gosto das entoações, das pausas, dos silêncios que dizem tudo e dos olhares embargados ou eufóricos que mesmo sem palavras, falam ao coração. Mesmo que as conversas não sejam comigo.
Quando ando por aí sozinha, se é verdade que normalmente ando metida com os meus pensamentos e de música na cabeça, também gosto quando tiro os phones dos ouvidos. Sabe-me melhor sentir os ruídos da cidade e já tenho ouvido um ‘Hallo’ ocasional de pessoas que me vão reconhecendo. Vou deixando de ser anónima por aqui. Isto aconteceu em 4 meses e só tenho pena que na minha urbanização em Portugal já lá more há quase 3 anos e não haja uma alminha que me diga ‘Olá’ na rua.
Continuo a ser anónima, mas lá já não acho muito coerente. No fim de contas é o meu país e não devia ser só mais uma. E eu não quero viver num sítio em que diga que só lá vou dormir. É a pior maneira de se ser anónimo. É que para além de não se ser reconhecido é nem sequer conseguir reconhecer o sítio onde se vive.

