domingo, 8 de janeiro de 2012

Semana 19 – Balanços e recomeços

christmas tree
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      “Cheers to a new year and another chance for us to get it right.” Oprah Winfrey
Para o ano que terminou, eu tinha estabelecido algumas metas a cumprir e em maio deitei contas aos primeiros meses e foram mais que positivos. Dezembro chegou e partiu e eu não tive tempo para pensar no que consegui cumprir. Hoje ao desmontar a árvore de Natal estive a pensar em tudo o que me propus e fiquei muito contente porque o balanço não podia ser melhor.

Houve dois acontecimentos muito importantes no ano de 2011 que vão continuar a marcar a minha vida. Fui novamente viver durante uns meses para a Alemanha e soube que a minha irmã gémea vai ser mãe (está quase, quase e eu estou muito entusiasmada com a chegada do pequenito!)

Para além disso, no blogue atingi a marca dos 1000 posts e 81 seguidores. Tentei escrever alguma coisa todos os dias. Tarefa muito facilitada por ter mudado de país. Obviamente que com esta mudança consegui passear e viajar mais. Conheci novas pessoas e muitas coisas novas. Também teve aspetos menos bons, porque obviamente que não consegui passar tempo com a minha família porque não estive em Portugal. No regresso tentei recuperar o tempo perdido com toda a gente, incluindo com as minhas amigas, por isso o mês de agosto também foi um marco na minha vida, com todas  as coisas giras e divertidas que fiz e os sítios novos que conheci. Também consegui manter um ótimo volume de leitura e acrescentei bastantes livros à minha biblioteca de livros lidos, o que se encaixa perfeitamente na minha vontade de continuar a desenvolver o meu hobbie preferido ao longo do tempo.

Em termos profissionais, vou-me sentido muito satisfeita com o rumo que tenho traçado, principalmente porque as melhores coisas não têm sido planeadas, no entanto a tão desejada estabilidade está difícil de aparecer. Tenho trabalhado muito a organização nas várias vertentes da minha vida e sinto-me feliz com tudo o que já consegui melhorar. Sei que muitas vezes pareço um bocadinho ‘estranha’ aos olhos das outras pessoas com tanta organização, mas se consigo gerir a minha vida assim e me sinto produtiva, acho que já encontrei a fórmula certa. A organização também já chegou às limpezas cá de casa e sinto que temos conseguido manter tudo mais arrumado e mais limpo e nem tem sido preciso muito esforço. Só uma melhor gestão. Esta palavra parece-me estar na moda!

Quanto a saúde, contam-se umas constipaçõezitas e fiquei rouca algumas vezes mas nada de grave. Consegui fazer o check up tantas vezes adiado e confirmei que está tudo ok. Também participei numa colheita de sangue e só tenho pena que não tenha sido mais vezes.

No tópico poupanças não houve alterações, infelizmente, porque a palavra crise que soa a toda a hora na televisão e aparece em letras garrafais nos jornais e nas revistas também tem reflexos cá em casa. Trabalha-se a gestão das despesas e tenta-se cortar em tudo o que é supérfluo, mas não é possível poupar. Haja saúde e trabalho que tudo se compõe, como costumo dizer. Felizmente não falta cá em casa nenhuma dessas, por isso é continuar a batalhar.

Para 2012, que tudo se mantenha como estava no final de 2011 e já será um bom ano! Obviamente que havendo um novo ano a recomeçar há tantos tópicos a melhorar, se possível. É só querer!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Semana 18 - Parece que é Natal…

natal = sentimento
I have always thought of Christmas as a good time; a kind, forgiving, generous, pleasant time; a time when men and women seem to open their hearts freely, and so I say, God bless Christmas!  - Charles Dickens
        Sentada à mesa da cozinha a beber um capucino e uma torrada dou por mim a pensar nisto do Natal e percebi que o que gosto mesmo é dos preparativos e da expetativa, porque no fim de contas entre dia 24 e 25 as 48 horas do Natal passam depressa demais. Mesmo assim, há 4 anos que os meus Natais são passados entre famílias, temos dividido bem a conta das horas e conseguimos estar com toda a gente na noite de Natal e no dia 25. Não é preciso muita ginástica para estarmos com aqueles de quem gostamos e que gostam de nós, já que a distância é irrelevante – são poucos quilómetros, mas mesmo que fossem muitos!

        E é bom ver e saber que estão todos bem de saúde e que somos felizes juntos. Sei bem que as nossas famílias têm particularidades que por vezes são difíceis de compreender ou até de aceitar, mas tentamos lidar com isso da melhor forma possível: na minha família liga-se pouco ou nada a presentes, principalmente embrulhados (debaixo da árvore cá de casa este ano não houve um presentinho para contar a história! Bem, a minha irmã deu-me um colar lindo que não consegui deixar de abrir logo na altura. Ups!), mas na família do marido a coisa é levada muito mais a sério e há sempre presentes para toda a gente, mesmo que seja só um miminho. Eu acho piada ao gesto, mas faz-me um bocadinho de confusão porque desde que sou adulta não há o ritual da troca de prendas. A minha mãe dá-me o que eu preciso quando é preciso e não tem de ser no Natal e normalmente são objetos para a casa – este ano foi uma manta para o sofá. Nós fazemos prendas caseiras: doces, bolachas, azeite e sal aromatizados e mistura para panquecas e decoramos com o nosso melhor sorriso, uma fita bonita e já está. Um pouco de nós.

         Nós damos estes miminhos porque já sabemos que vamos receber alguma coisa, mas no meu caso nunca tenho vontade de receber nada – já disse que gosto mais de dar do que de receber? – e só há um presente que me deixa verdadeiramente feliz. Livros! (Claro que não desprezo os presentes que me dão, porque alguns são bastante úteis, mas são isso mesmo, úteis, não felizes!) Sei que todos os anos em que vivi em casa dos meus pais houve sempre este presente em comum e eu e a minha irmã adorávamos.

        Lembro-me perfeitamente de receber alguns livros da Anita – agora estão guardados no sótão à espera que apareça alguma menina na família que demonstre tanto interesse por eles como nós-, livros do Triângulo Jota, Uma Aventura, os Cinco e outros que tais. Mais crescidas, recebíamos dinheiro e quando já tínhamos juntado uma quantia jeitosa íamos à FNAC e nunca vínhamos de lá com menos de 100€ em livros. ‘Romances’, como diz a minha querida avó. E que saudades tenho desses tempos.

       Este ano não recebi livro nenhum…mas parece-me que em janeiro vou aumentar o meu espólio já que tenho uns quantos na minha lista de desejos! São caros, que são, mas eu acho que os livros são sempre um investimento e nunca é dinheiro perdido, por isso é que iniciativas como a Déjà Lu são de louvar.
        Os jornalistas conceituados da nossa praça não servem só para serem opinion makers nem para escreverem livros. Devem também – tarefa até mais importante, segundo o meu ponto de vista – divulgar e promover as boas iniciativas que ainda vão aparecendo com causas nobres, como se pode ver no caso do jornalista Pedro Rolo Duarte que no seu blog discorre sobre o estado de Portugal aos seus olhos, mas também faz referência a boas práticas que se vão fazendo por aí. Umas delas é o blog de leilões de livros que já referi, que aceita ofertas de particulares ou de autores e que depois vende essas obras por um preço simbólico. Eu achei o contexto e o objetivo tão interessantes (o valor integral das obras é entregue à APPT21 – a transferência é feita diretamente para a conta da associação) que não resisti e comprei dois livros do Pedro Rolo Duarte, autografados pelo próprio e tudo, pela módica quantia de 12! A partir daqui faço muitas questões de continuar a contribuir para esta causa. E se vou poder continuar a reforçar o meu stock de livros, tanto melhor!

         Vou continuar a fazer isso ao longo do ano, porque há sempre livros novos que quero ler, ou antigos que nunca li, mas principalmente porque ser solidário não pode ser só no Natal. Sei que as pessoas têm mais tendência para a solidariedade nesta época, porque se sentem mais generosas, mais felizes e com mais esperança como já dizia o senhor Charles Dickens, mas isso não é desculpa para não o serem também ao longo do ano. A nossa ajuda faz sempre falta, seja Natal, Carnaval, Páscoa, verão ou inverno e não é só para as associações. Muitas vezes os nossos amigos ou a nossa família precisam de nós. De nós, do nosso tempo, da nossa disponibilidade e não de presentes. Ou como cantam os Deolinda:

Diz-me lá porque que
tu te lembras de mim
quando chega o natal
porque é que só nesta
quadra é que tu reparas
se eu estou bem ou mal
diz-me lá onde é que paras
o resto do ano
eu preciso mais de ti
do que te vais lembrando
Diz-me lá porque é que tu
não me envias postais
durante o ano inteiro
Diz-me lá porque razão
é que não me dás prendas
sem ter um pretexto
diz-me lá o que te move
uma vez por ano
eu preciso mais de ti do
que te vais lembrando
diz-me lá que gratidão
é que esperas de mim
apenas por um dia
eu que espero um ano
inteiro e que tanto anseio
a tua companhia
hoje reformulo os votos
e o meu desejo
eu preciso mais de ti
do que te vais lembrando
Um feliz natal
não hoje mas um ano inteiro

Deolinda - Quando chega o Natal

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Semana 17 – Carta de motivação

work by steve jobs
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Cara chefe,
Eu sei que não tenho dedicado muito tempo a pensar nas razões que me levam a trabalhar nestes moldes, e se o fizesse só me perguntaria para quê? Tenho a certeza absoluta de que isto foi sempre o que quis fazer. Percebo perfeitamente o sr. Jobs quando afirma que só se fazendo o que se gosta é que se viverá satisfeito.

Bem, a minha felicidade passa em grande parte por saber que as minhas competências se encaixam entre o ser social e o ser responsável e trabalhador que se empenha o máximo em todas as tarefas. Podia ser a pessoa mais organizada e metódica do mundo (que não sou) e depois não ter a sensibilidade suficiente para lidar com alunos de anos tão diferentes entre si como o 1º ou o 12º, já para não falar na formação.

Gosto deste equilíbrio entre a técnica e os conhecimentos e o desenvolvimento da vertente da comunicação que este trabalho permite. Gosto particularmente de conseguir aplicar na minha vida a máxima perfeita de Confúcio: ‘Choose a job you love, and you’ll never have to work a day in your life’, porque muitas vezes sinto que não devia receber por estar a fazer algo que gosto tanto.

E não deixa de ser verdade que há dias difíceis neste trabalho que escolhi, mas é bom ter a certeza que todos os dias faço o meu melhor para conseguir responder a todas as solicitações dos alunos. Gosto de chegar a casa cansada, mas com a sensação que não havia mais nada que pudesse fazer para que tudo corresse bem. Muitas vezes acontece ter de pensar rápido para conseguir resolver as situações, mas isso faz parte do pacote com que saímos da faculdade. Ou então não, porque me sinto a melhorar todos os dias e não houve ninguém a ensinar-me a pensar rápido na faculdade.

Pensar rápido implica muita coisa, desde ralhetes até improvisar situações novas de aprendizagem, passando por resolver a falta de fotocópias, imaginar flashcards, ter presença de espírito em todas as situações dentro e fora da sala para não haver atitudes demasiado extremas com os alunos e para se manter uma boa relação com os colegas. Pensar rápido também quer dizer não deprimir quando se recebe o ordenado e se percebe que uma parte do que estamos a receber não é nossa.

Não, claro que não nos foi pago dinheiro a mais. É só aquela percentagem que temos de pagar ao estado em descontos, nada de surpreendente, portanto. Felizmente, e por vários motivos, ainda não comecei a pagar isso, mas quando começar espero não me vir a arrepender de ter este regime de trabalho.

Este regime de trabalho tem as vantagens de me permitir ser independente e gerir o próprio tempo. E se na parte de gerir o meu tempo não há problema nenhum, porque todas as atividades que estou a desempenhar estão bem encaixadas no meu horário, o facto de ser independente também é uma mais-valia porque não estou dependente de nenhuma empresa. Posso trabalhar em vários sítios a fazer várias coisas, o que só vai beneficiar o meu currículo. E consigo ter algum tempo para almoçar com a minha família ou às vezes com as amigas. Não há muito tempo livre, mas o que há é bem aproveitado.

Então à primeira vez parece-me que não há nenhuma desvantagem. Ganho mais do que ganharia a trabalhar só numa empresa, tenho um horário de trabalho flexível, não tenho um trabalho monótono nem rotineiro, conheço muitas pessoas e vários métodos de trabalho. Até aqui tudo ótimo. As desvantagens só aparecem no fim. Do mês e dos trimestres.

No fim do mês porque há um sem-fim de recibos para preencher para as várias entidades com que trabalho, o que significa se não tiver trabalhado é claro que não recebo. Não há subsídio de doença que me valha se tiver de ficar em casa por motivo de doença por um período inferior a 30 dias. Se pensar em ter um filho, neste momento já receberia subsídio, nem sei bem em que moldes, mas como também não está previsto não é problemático. E também há o pagamento à Segurança Social que me permitirá receber estes subsídios, caso seja necessário.

No final dos trimestres também há o pagamento do IVA e a retenção na fonte, que representam uma fatia generosa do que recebemos. Percebo que se ganhe mais como trabalhador independente porque as despesas são inúmeras e a organização tem de ser muito maior. Temos de ter um registo apertado para sabermos sempre em que ponto está a situação fiscal para não haver surpresas. Já não basta cada aula ser sempre diferente, apesar de planeada, quanto mais ainda haver surpresas desagradáveis relacionadas com dinheiro.

Obviamente que mesmo tudo somado, adoro o que faço. Sou professora, claro! E não saberia ser outra coisa!

sábado, 8 de outubro de 2011

Semana 16 - Ser português não é fácil, não!

blessed - disappointed
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Há dias em que não tenho paciência nenhuma para conversa de circunstância e em que só me apetece responder torto. Tenho-me aborrecido um bocado com as perguntas insistentes de alguns dos meus conhecidos: 'Então, mas não estavas na Alemanha? E vais voltar? Quando?' E meterem-se na vossa vida, não?

Eu gosto de falar sobre a minha experiência no estrangeiro (como os meus avós dizem, porque lhes parece a uma distância impensável), mas cada vez que falo nisso fico tristíssima porque muitas vezes me apetecia muito mais lá estar, mesmo sozinha, do que estar aqui em Portugal e voltar a viver esta vidinha muitas vezes chata. Eu estou feliz por estar de volta à vida que conheço bem e às pessoas que amo, mas abrir o jornal e aperceber-me de tanta coisa que se passa por cá e que contribui para a taxa de depressão ser a 2ª maior da Europa também me deprime. Estar sozinha durante vários meses tornou-me mais imune a muitas coisas, mas a diminuição de qualidade de vida é coisa para me mexer com os nervos.

Problemas e desigualdades sociais a aumentar, qualidade de vida a diminuir assim como os ordenados e os subsídios a quem precisa. Cortes na educação e na saúde que servem os propósitos somente económicos de quem andou a esbanjar o que tinha e o que não tinha e que agora se vê a braços com os memorandos da troika para prevenir que Portugal não chegue ao estado da Grécia. No meio de tudo isto quem paga é sempre o contribuinte, que é como quem diz, cada um de nós, que vivendo de acordo com as suas possibilidades, vai ter de ver a sua qualidade de vida diminuir à medida que os impostos aumentam e o salário vai sendo cada vez menor para fazer face às despesas do governo. Esta crise que estamos a atravessar torna cada vez mais real aquela frase ‘sobra mês para o ordenado’.

Eu sei que sou muito básica nesta análise, mas preocupa-me o estado da nação enquanto contribuinte e enquanto profissional. Sou professora a recibos verdes, a trabalhar em vários sítios ao mesmo tempo porque aquela oportunidade que estava mesmo ao virar da esquina desapareceu por falta de verba. Acho muito triste que por falta de dinheiro (e sendo a má gestão também um fator possível) os alunos deixem de ter aulas. Neste caso esta situação já não será nova, mas como me afetou diretamente a mim e aos meus planos, sinto-me bastante indignada com a facilidade com que se decidem as coisas tendo em conta critérios economicistas.

Bem, se pensarmos nas condições de trabalho dos professores que lecionam no nosso sistema de ensino e no ciclo que todos os anos se repete para milhares que voltam às listas de colocação e ficam desesperados à espera de uma vaga, nem é motivo para estranhar que o concurso de recrutamento para o estrangeiro tenha sido cancelado. Costuma dizer-se ‘longe da vista, longe do coração’, o que neste contexto só me leva a questionar-me se os alunos que vivem fora de Portugal, mas que são descendentes de portugueses, serão menos importantes nesta hierarquia do ensino. Achando eu que não deveria ser assim, porque se pensarmos também em motivos económicos, ainda há muito dinheiro a entrar em Portugal vindo das nossas comunidades portuguesas que estão a construir as suas vidas e as suas famílias lá fora, já que não encontraram condições em Portugal para se estabelecerem.

Tenho em crer que se esta visão economicista continua, qualquer dia deixamos de ter portugueses lá fora. Se as pessoas na maioria das vezes já se identificam mais com os países de acolhimento, não me parece assim tão absurdo sentirem-se cada vez menos portuguesas e cada vez mais alemãs/ francesas/ venezuelanas/ canadianas ou outra coisa qualquer. Nos meses que estive fora, não me pareceu que houvesse uma adoração cega por Portugal e até se percebe porquê. Infelizmente os filhos das segundas e terceiras gerações começam a não conhecer o país de onde são provenientes as famílias, então aprender português porquê?

Para quem dá aulas e se preocupa com estas coisas, dá que pensar.

sábado, 17 de setembro de 2011

Semana 15 – Do hoje e do agora. Podiam ser aborrecidos, mas…

i don't know where i'm going, but won't be boringlife is a sequence os moments called now
Since life and experience is a matter of trial-and-error, there’s no need to take choosing – or life itself – too seriously.
Soren Lauritzen

Tentanto e errando, muitas vezes, fazendo muitos erros e aprendendo com eles, ou até continuando a bater com a cabeça na parede até realmente aprender alguma coisa de útil com isso. Costuma ser assim que vou percebendo como é que as coisas se fazem.

Houve uma altura da minha vida em que o que eu queria mais era ter alguém, tipo um guia ou um 'mestre' que me indicasse que caminho escolher e que decisões tomar. Como é óbvio, essa pessoa nunca apareceu e tive de começar a trilhar o meu caminho sozinha, muitas vezes com a ajuda de pessoas que foram aparecendo na minha vida e que me foram dando bons conselhos e agora sei que não seria a pessoa que sou hoje se tivesse tido um tutor a decidir por mim!
Quando chegamos a adultos tomamos consciência de muitas coisas que nos permitem crescer como pessoas, mas que, por mais que queiramos, são intransmissíveis e só com a experiência é que toda a gente lá chega, por isso se os meus pais me tivessem dito o que é ser adulto, tenho a certeza de que não iria usufruir em pleno de todas as experiências e conhecimentos que ganhei.~

Ganho em coisas feitas, sítios visitados, experiências vividas, pessoas conhecidas, dias cheios e uma vida preenchida. Uns anos depois de achar que precisava de ser guiada, tenho a certeza que tenho levado a minha vida da maneira que melhor se adapta a mim. Todas as pessoas que tenho conhecido apareceram na altura certa. E por mais que às vezes pense que tudo corre mal e que há dias em que não me apetece fazer nada, nem ver ninguém, tenho tido sempre vontade de me levantar da cama e quebrar esse ciclo de pensamentos negativos. Olho para trás e vejo que a minha vida tem sido boa. Rica em pessoas e momentos. Bem, muitas vezes as pessoas e os momentos deixam-me sem espaço para pensar. Mas ajudam-me a não errar, ou pelo menos a levantar-me quando caio e também não me deixam levar-me demasiado a sério.

Acho que escrevo mais quando tenho tempo para pensar no que vai acontecendo na minha vida. Desde que regressei da Alemanha tenho andado numa lufa-lufa entre amigos, família, marido, a casa e as gatas e por causa disso tem havido alturas em tenho saído muito e outras em que me parece que não saio de casa. No meio de tanta coisa, o tempo para pensar não tem sido muito, logo o tempo para escrever também não, e coisas com muito sentido ainda menos. Por um lado ainda bem, porque significa que vou vivendo mais e planeando menos. Por outro, não racionalizo e acabo por perder raciocínios e por não organizar as ideias e os planos. Não se pode ter tudo.

Por estes dias, ando a sentir-me com falta de adrenalina. Quero e preciso de sentir que o meu ‘agora’ faz parte de um plano que tracei para a minha vida, coisa que não tem acontecido muito, porque tenho aproveitado o correr dos dias, em vez de traçar grandes planos. Por isto mesmo ando a precisar de receber uma boa notícia que faça o meu mundo começar a girar outra vez a altas rotações. Gosto de ter tempo para estar com as pessoas de quem gosto muito e para fazer coisas que me dão prazer sem horários, mas sinto que o meu tempo livre se está a tornar demasiado. A falta de atividade cansa-me e não é decididamente o que quero para mim. Quero energia, alegria, movimento. Tudo menos aborrecimento!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Semana 14 – Os dias da família deviam ser todos os dias!

grandparentsi'm missing my grandparents
Estivesse eu ainda por terras alemãs e a segunda frase podia ser o tema do telefonema para os avós para lhes desejar um dia feliz. Ainda para mais hoje, que é Dia dos Avós. Lembro-me tantas, tantas vezes deles seja porque os visito pouco e devia passar lá mais tempo, seja pelas ausências ‘forçadas’ noutro país, seja porque às vezes me passam pela cabeças coisas que se passaram há vários anos.

Eu adoro os meus avós. Acho que são pessoas espetaculares, que já passaram por muito, mas que continuam sempre com um sorriso quando os netos aparecem para dar um olá e um beijinho. Desde que casei admito que o tempo que passo com eles diminuiu drasticamente e vejo a sombra das saudades nos olhos deles quando apareço.

A minha avó materna vive em casa dos pais desde que o meu avô morreu, há coisa de 15 anos, se não me engano, e em todos os anos em que vivi 24/7 com a minha avó criaram-se hábitos ótimos. Sei que a minha avó gostava e eu, então, adorava tomar o pequeno almoço com ela quando tinha tempo. E mesmo depois de casada quando é possível passo por lá para me sentar com ela à mesa a comer uma fatia de pão com queijo e um caneca de leite com Mokambo. É um cheirinho maravilhoso da minha infância - a repetir em breve. Também me lembro perfeitamente quando a minha avó se mudou para lá e ainda não havia um quarto só para ela. Eu e a minha irmã andávamos ao despique para ver quem é que dava a cama à avó para a avó não dormir na sala. Bem, não era assim uma razão muito altruísta, porque quem dormisse na sala podia ouvir música, estando o sofá-cama ao lado da aparelhagem, mas assim a avó também ficava mais confortável e podia conversar com a neta que estivesse lá no quarto.

Quando a minha irmã foi estudar para o Algarve, passei horas com a minha avó a ver as novelas, que ela me explicava desde o princípio com tanto gosto, que eu comecei a conhecer as personagens todas e não me envergonho nada disso. Diz-se que o tempo com a família deve ser de qualidade, certo? Nos intervalos íamos falando das nossas vidas, dos namorados, das amigas, das coisas da vida, da vida da mana lá pelos algarves, ‘então, a tua irmã vem este fim de semana a casa?’.Foi a minha avó a ajudante oficial das mudanças para a casa nova e é a pessoa que lá vai mais vezes. ‘Ó vó, anda lá, o R. vai trabalhar e nós duas podemos ir passear, vês as novelas na mesma e vais arejar! Sim, podes levar o Nino.’ Estes eram os meus argumentos quando a queria convencer a ir lá dormir a casa. Com as gatas a coisa ficou mais difícil, ela vai mas fica a pensar no cãozinho que deixa nos meus pais.
Com os meus avós paternos a coisa já é um bocadinho diferente. Gosto muito deles na mesma, mas há assim uma ‘embirraçãozinha’ mútua entre a minha mãe e a minha avó. Coisas de nora e de sogra (no meu caso não é nada assim…) que eu e a minha irmã fomos percebendo ao longo do tempo e que não veio beneficiar em nada a nossa adoração pela nossa avó. E quando eram os meus primos que faziam asneiras e eu pagava as favas também não era bonito. Hei de ser sempre a culpada de ter partido a televisão dos meus avós sendo que não tenho culpa nenhuma no assunto. Bem, mas também era fresca e ficou em cacos a mesa de vidro que estava no meio da sala e pela qual a minha avó tinha tanta estima. De todas essas vezes lá veio a minha mãe toda enervada e catrapaz, uma estalada para aprenderes…

Com os anos, comecei a perceber melhor os meus avós e aquilo que achava que era embirração não é mais do que uma estranha maneira de gostar. A minha avó é orgulhosa demais para admitir que a minha mãe é a melhor nora que podia ter e por isso andam as duas sempre às cabeçadas. A minha mãe também não dá o braço a torcer, mas derrete-se-lhe o coração quando o meu avô fala com ela e lhe transmite o orgulho que tem nela e na família que ela e o meu pai construíram.

Não somos uma família disfuncional. Damo-nos lindamente (felizmente muito melhor desde que eu e a mana casámos) e contamos uns com os outros para tudo. Segredos não há e quando há problemas todos sabem. Os meus avós têm opinião para tudo e o meu avô ainda faz valer a sua posição de patriarca apesar dos já muito vividos 80 anos. Sou orgulhosa de muita coisa e os meus avós são uma delas. E só espero ser capaz de construir uma família tão bonita como a nossa. 

E por isso faz-me tanta confusão ler isto. Os meus avós têm tido uma vida dura, mas deram tudo pelos filhos, e tenho a certeza que os idosos que são maltratados também. Filhos e netos ingratos que devem pensar que nunca irão ser velhos. Mas toca a todos e infelizmente sempre se disse '
Espera de teus filhos o que a teus pais fizeres'.

imagens: weheartit.com

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Semana 13 - Ser anónimo…

the city is full of ghostsannonymous in the city
Se estiver sozinha tanto faz ser nesta cidade, na vila onde moro em Portugal, ou num hostel em Berlim. Sou só mais uma anónima no meio dos 7 mil milhões de pessoas que habitam este planeta. Por isso não será assim muito absurdo se eu disser que até gosto disso, pois não?

Cada um de nós é uma gota num oceano imenso de pessoas, mas cada um tem também a sua própria direção, seguindo muitas vezes a corrente arrastada pelo fluxo dos que o rodeiam -  a sua família, os conhecidos, os amigos e outras tantas pessoas que vão aparecendo – só porque normalmente é mais fácil, mais lógico, com menos obstáculos. Mas se cada um fizer valer as suas ideias sem ter em conta nada que possa aprender com os outros, continuará tão só como se estivesse sozinho no mundo.

Estar sozinho não é ser anónimo. Ser anónimo é simplesmente não ser reconhecido por ninguém. É estar só com os os seus pensamentos captando a essência dos locais, sentir a ‘alma’ dos que habitam ou habitaram aquelas ruas, que viveram aquele ambiente, que deixaram uma parte de si por lá, ou que construíram o seu espírito com partes da cidade. Já me senti assim muitas vezes, como se estivesse a absorver a vida de outras pessoas, de outros tempos, outras eras. Sinto que estar sozinha até é uma benesse, porque não me distraio tanto.

Gosto de ser anónima, de passar despercebida, de ser eu no meio de outros. No entanto, esse anonimato acaba por quebrar-se estando algum tempo no mesmo lugar e aí a vida começa a rolar. Quando os desconhecidos começam a tornar-se conhecidos vamos começando a nossa história e deixamos de ser anónimos. Passamos a seguir o nosso caminho menos sozinhos, com gente que gosta de nós e nos vai acompanhando em pedaços do nosso caminho. Os conhecidos passam a ser amigos e vão integrando o o leque de pessoas que também nos transformam e nos criam como pessoas.

E eu sei que gosto muito de pessoas, das suas histórias, de conhecer as suas vidas, os seus fracassos, sucessos, emoções, o que as move e o que é importante para as fazer acordar todos os dias de manhã. Se possível gosto de saber isso ao vivo, ouvir os sons das palavras a serem ditas, e as emoções a aparecerem ao canto da boca e na curvatura das pestanas. Gosto das entoações, das pausas, dos silêncios que dizem tudo e dos olhares embargados ou eufóricos que mesmo sem palavras, falam ao coração. Mesmo que as conversas não sejam comigo.

Quando ando por aí sozinha, se é verdade que normalmente ando metida com os meus pensamentos e de música na cabeça, também gosto quando tiro os phones dos ouvidos. Sabe-me melhor sentir os ruídos da cidade e já tenho ouvido um ‘Hallo’ ocasional de pessoas que me vão reconhecendo. Vou deixando de ser anónima por aqui. Isto aconteceu em 4 meses e só tenho pena que na minha urbanização em Portugal já lá more há quase 3 anos e não haja uma alminha que me diga ‘Olá’ na rua.

Continuo a ser anónima, mas lá já não acho muito coerente. No fim de contas é o meu país e não devia ser só mais uma. E eu não quero viver num sítio em que diga que só lá vou dormir. É a pior maneira de se ser anónimo. É que para além de não se ser reconhecido é nem sequer conseguir reconhecer o sítio onde se vive.

imagens: pinterest.com