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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Semana 27 - Coisas estúpidas

stupid things
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Aqui há uns tempos surgiu uma polémica enorme na net acerca do comportamento das crianças, se são hiperativas ou mal-educadas a partir de uma crónica do Henrique Raposo. E eu fiquei a pensar se não vivemos todos numa sociedade demasiado permissiva e desculpabilizadora dos comportamentos dos infantes?

Quando li o artigo concordei (e agora ainda concordo mais!) porque há por aí muitos pais que decidem pôr crianças no mundo e depois se ‘esquecem’ do mais importante que é dotá-las de regras de convivência social. Há muita má-educação a grassar por esse país fora e alastra-se como fogo em mato seco, e chega uma altura que os pais deixam de ter poder para controlar. Noutras situações, os pais pegam no lado errado na questão e isso é muitíssimo frustrante! Sei que há muitas crianças hiperativas e tive alunos a tomarem medicação e muitas vezes a situação torna-se muito difícil de gerir, porque as crianças não são passíveis de serem amestradas, nem é isso que se pretende, mas concordo com o artigo principalmente na referência à falta de regras que vemos todos os dias basta sair à rua.

failure
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Vamos imaginar a seguinte situação: escola com ótimas condições, professora de Inglês nas AECs dedicada e empenhada que se esforça por fazer aulas interessantes e motivadoras para os alunos, mas tem alunos que não se calam e se portam mal* - não respeitam a autoridade da professora nem demonstram ter o mínimo de conhecimento das regras da boa educação na sala de aula, que nem com recados, castigos e cópias de frases ’Tenho de me portar bem’ encaixam as ditas regras. Há um diálogo constante com os colegas titulares das turmas e ainda assim o comportamento dos alunos não melhora, mesmo depois de uma reunião com o responsável da associação de pais da turma mais problemática.

O que acham que acontece com um turma de 23 alunos? Há reuniões de pais com todos os professores envolvidos (neste caso eu e os colegas titulares) para se perceber porque é que os alunos se portam assim e encontrar-se medidas corretivas adequadas? Ou dispensa-se a professora? Um prémio para quem adivinhar!

Pois é, ganhou a hipótese B! Fui dispensada da escola onde gostava tanto de trabalhar por causa do comportamento do miúdos (achava eu que seria por causa dos problemas com essa turma, mas afinal houve queixas de indisciplina nas minhas aulas em 3 turmas diferentes, que eu ainda estou para perceber de onde vieram…) e mesmo estando agora mais conformada com a situação, fiquei indignada com a reles consideração que tiveram por mim. Não fiquei com ressentimentos contra ninguém, até porque eu não sou assim, mas quando há responsáveis de escolas que preferem o lado dos pais (já que são eles que providenciam muitas vezes os materiais necessários, exemplo disso – os quadros interativos) ao trabalho dos professores, acho que há um ponto importante que se perdeu no caminho! Sempre me disseram naquela escola que o meu trabalho pedagógico era ótimo -  as atividades com os miúdos, as fichas que preparava, as organização das aulas e a dedicação – o que ainda torna a situação mais surreal! Então se o meu trabalho é bom e são os miúdos que se portam mal, sou eu que sou dispensada?

Isto faz algum sentido?? Para mim definitivamente não! Aqui se vê que os comportamentos menos próprios e a falta de regras não são exclusivos de estratos sociais mais baixos. Do que tenho percebido, os pais com mais dinheiros mostram mais tendência mais desculpabilizar os filhos, porque a culpa não pode ser das crianças. Têm tudo o que querem e ainda se portam mal? Não pode ser!

actionsAhhh! Pois, se calhar o problema está na postura da professora, que não tem empatia suficiente com os meninos ou tem um energia um pouco agressiva. Mas é o quê? É óbvio que a empatia se tem ou não se tem, não conseguimos agradar a toda a gente e tudo isso influencia a relação que temos com as pessoas e delas connosco, mas se os miúdos vêm ter comigo no intervalo e falam comigo alegre e espontaneamente e gritam pela ‘teacher’ quando me veem no pátio, será que isso quer dizer que não gostam de mim? Devo ter os sensores da perceção avariados, então.

Eu não sei o que dizer mais, a não ser que foi uma conjugação infeliz de vários fatores e que culminou na minha saída de lá. Até parece que fui o bode expiatório de alguma coisa e eu até pensava que janeiro não estava a começar mal e até estava contente com os resultados do desafio 'Berra-me Baixo'! Esta 4ª feira fui lá organizar a papelada nos dossiers das turmas e ainda trouxe 2 para casa para acabar de pôr os trabalhos dos miúdos bem organizados para a colega que me vai substituir e fiquei a pensar no dinheiro que gastei: dossiers, separadores, resmas de papel, tinteiros e que obviamente nunca me foi pago. Gastei porque quis, para ter as coisas à minha maneira e organizar as aulas sem estar dependente do plafond das fotocópias (100 alunos não se torna fácil de gerir também a esse nível, porque mesmo que só quisesse 2 cópias por semana por turma no final do mês seriam 800 cópias e isso multiplicado por outros tantos professores não ia ser fácil, mas até isso eu compreendo) e no fim vejo-me a preencher avaliações intercalares de alunos que já não vou ter mais e ainda tenho de preencher avaliações finais para facilitar a vida à colega e para haver documentação do mês de janeiro.

No meio de tudo isto, o que é que se responde quando há um miúdo que vem ter comigo no pátio e me pergunta ‘teacher, quando é que voltas?’ Balbuciei qualquer coisa e virei-lhe as costas com o coração apertado e uma revolta enorme dentro do peito! O valor da dedicação realmente já não é o que era…

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* [há comportamentos muito piores e mais violentos, mas irritava-me solenemente não conseguir dizer mais do que duas frases seguidas sem ter de interromper e mandá-los calar!! Felizmente nunca tive de separar ninguém, porque não se agrediam, nem subiam mesas nem cadeiras, mas atiravam material escolar uns aos outros e passavam as aulas a cochichar!]

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Semana 24 - Portugal ao contrário

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Sou pessimista porque sou lúcido, disse Manuel Cavaco em entrevista no Alta Definição e na altura, apesar de não concordar muito, guardei a frase porque podia vir a fazer sentido. Tinha razão.

Não é que me tenha transformado em pessimista, mas acho que esta crise veio fazer-nos olhar para as nossas vidas de uma forma mais crua. Eliminam-se os excessos, corta-se o supérfluo, perde-se o brilho no olhar, mas continuamos a viver neste país que é o nosso, pelo menos até perdermos toda e qualquer esperança que ainda nos reste na alma. A quem acontece isso, resta-lhe o sonho de que noutro lado será mais feliz do que neste país que parece que não nos quer cá. A nós jovens, ou até aos mais velhos que deixaram de acreditar no seu país e que muitas vezes saem de Portugal sem saber que condições vão encontrar! Agora lembrei-me que já tinha escrito sobre isso aqui, a propósito da manifestação de março do ano passado. E continuo a achar o mesmo!

Há umas semanas na formação profissional que estou a dar (a pessoas que estão desempregadas) discutiram-se os direitos adquiridos que desapareceram, a quantidade de burocracia existente em tudo o que é serviço público e toda uma série de problema que existem no nosso país e que só complicam a vida das pessoas. Eu só olhava para os meus formandos com um misto de compreensão e perplexidade. Em parte eu percebo a angústia das pessoas porque se sentem completamente devastadas com a perda dos direitos adquiridos e com o mau funcionamento das coisas em Portugal, principalmente com a facilidade dos despedimentos e o fraco ou inexistente controlo dessas situações por parte do Estado. Os ricos continuam a ficar cada vez mais ricos à custa dos contribuintes, que estão cada vez mais pobres e desempregados, porque o desemprego já atinge cerca de 15% da população ativa.

Os direitos pelos quais as pessoas lutaram e continuam a lutar estão a desvanecer-se num mar de medidas supostamente anti-crise que tornam cada vez mais difíceis as vidas das famílias. Já somos mais papistas que o Papa a apertar um cinto que já não tem mais buracos por onde apertar. As pessoas perdem o emprego, muitas famílias perdem as casas, a vida económica do país está a estagnar sem nada podermos fazer porque votámos neste governo e em todos os últimos governos que nos puseram nesta situação!

As pessoas manifestam-se com grande alarido ou
com um silêncio assustador contra tudo o que está a acontecer no país. Há greves, há marchas do povo que enchem as ruas de Lisboa e de várias cidades pelo país contra a Troika a instigar o regresso das vidas anteriores à crise, há imagens que marcam essas manifestações que não são mais do que uma tentativa de tornar mais humanas e mais racionais essas demonstrações do sentimento de revolta do povo português. Há quem abrace polícias ou quem lhe entregue cravos a relembrar uma outra revolução que mudou o país. Escreveu-se sobre isso na blogosfera a contar como foi quem lá esteve, viram-se reportagens durante toda a semana a contar o que aconteceu no dia 15 de setembro e ainda há referências a esse sábado como um dos mais marcantes dos últimos meses.

Depois há o outro lado. O sentimento da inevitabilidade do fado português. A vida é assim e não podemos fazer nada para a mudar, o que me irrita sobremaneira. Sei que muitas das pessoas que vão às manifestações e fazem greve, estão cansadas e queixam-se com razão, mas de que lhes vale queixarem-se e manifestarem-se se é só isso que fazem e não dão o seu contributo para que as coisas melhorem? O desemprego aumenta, mas quem ainda tem trabalho deve esforçar-se para que o seu trabalho importe e sirva de alguma coisa. Não é só a queixarmo-nos que as coisas se resolvem. É a trabalhar, é a dar o nosso melhor, é a tentar ver a vida por outro prisma, de outra perspetiva que podemos melhorar o nosso país. Há quem ‘invente’ T-shirts contra a Troika, quem faça contas à vida e tome opções mais coerentes com as condições atuais, quem se torne adepto do low-cost para conseguir continuar a fazer o que goste e a gastar muito menos.

z povinhoO governo devia aprender com as pessoas que uma logística equilibrada é feita de maior receita e menor despesa e por isso devia primeiro eliminar o que está a mais (despesas pesadas na máquina do estado que são os contribuintes que pagam: carros, luxos, assistentes, secretários e por aí fora…), e logo aí ser veria que não seria necessário aumentar tanto os impostos, porque a balança ia começar a ficar mais equilibrada. Ou então também pôr os olhos em medidas que se tomam lá fora que não prejudicam tanto as pessoas ou pelo menos atenuam as medidas de austeridade que nos são impostas todos os dias. 

bandeira matilde
Para além disso, devia ter-se mais atenção e respeitar a república, já que não se tem respeitado as pessoas. Ter uma bandeira ao contrário na comemoração do aniversário da instituição da República é grave e a meu ver sintomático do que se passa com o país! Já ouvi dizer que não vivemos num estado de direito, vivemos num ‘estado de sítio’.  Temos de levar as coisas com ironia, sim senhor (Já não há pachorra para tanta metáfora que envolve a bandeira ao contrário. Estamos tão sensíveis aos símbolos nacionais. Agora só falta todos aprendermos a cantar o hino. Ah, e votar!!!), mas também temos a obrigação de pensar no futuro do nosso país de uma forma séria, já que estamos a ficar sem esperança. O que mais se vê por estes dias em Portugal é gente sem esperança, sem fé no futuro. Gente que já não acredita num amanhã melhor.

Infelizmente não é só de gente crescida que estou a falar. Cada vez há maior dificuldade em explicar às crianças o porquê da crise. Porque é que têm de deixar de fazer as suas atividades preferidas ou porque é que têm de estudar se não sabem se vão ter emprego, ou porque é que o pai ou a mãe não tem trabalho ou porque é que as coisas em casa estão tão diferentes. Já há livros que explicam a crise às crianças, mas eu acho que as crianças precisam é de poder sonhar e não de estarem preocupadas com coisas que não compreendem.

Para mim, as crianças são o que de melhor um país tem, porque são elas que nos irão governar, por isso devem ter a sua infância resguardada dos problemas e aprender a crescer e a pensar. Se tiverem de crescer com meia dúzia de brinquedos em vez de terem um quarto cheio, concordo. Se tiverem de aprender a não serem esquisito com a comida, com a roupa ou com as brincadeiras, apoio a 100%. Se não puderem ir para a natação, podem ir correr para o jardim com os pais. E muitas outras variantes para o mesmo tema.

Há tempo para tudo, e neste tempo em que vivemos, também concordo que as crianças devem ser imunes o máximo possível a esta crise, mas tendo consciência de que os tempos em que vivemos são difíceis. Só assim conseguiram valorizar as coisas boas que têm. Aí também podemos aprender com elas. A valorizar as coisas boas que ainda temos, porque a nossa vida não pode ser só esta crise de que falamos todos os dias! Neste momento continuo um pouco otimista, mas muito mais lúcida! 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Semana 20 - Das decisões ou da falta de poder de escolha

girls in library
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A par do crescimento do desemprego, da agudização da crise em que o país mergulha, aumenta, a cada dia, o número de jovens que abandona o ensino superior por falta de dinheiro.
Já há quem nem chegue a candidatar-se. 

Parte dos que arriscam, está a deixar o ano lectivo a meio.
A reportagem é sobre o abandono escolar no Ensino Superior, coisa em que eu nunca tinha pensado a sério até ter ouvido a apresentação da reportagem como som de fundo na tv. Bem, eu sei que há imensas pessoas que desistem da faculdade por imensos motivos, mas realmente nunca tinha associado isso à crise. No entanto, como primeira análise, parece-me bastante redutor que na reportagem só tenham aparecido os casos dos alunos cujos pais deixaram de ter como pagar as despesas de um curso universitário. Há tantos outras situações que podiam ter sido referidas, mas como sempre, vamos falar da crise e como é um espinho na vida dos cidadãos.
Quem já passou pela vida universitária (e nem sequer estou a considerar estar-se deslocado noutra cidade!) tem a perfeita noção de que se gasta um balúrdio de dinheiro em fotocópias e livros e refeições e transporte, já para não falar das propinas. Sei que os valores chegam a ser assustadores (no ano em que entrei paguei 375€ anuais de propinas e 5 anos depois paguei 1000€!!!), e há bastantes pessoas que são trabalhadores-estudantes para conseguirem ter um pé de meia para os gastos, mas não houve nenhum caso assim retratado na reportagem. No meu caso, só trabalhei no último ano da faculdade e não foi propriamente para pagar as despesas universitárias, mas mesmo assim sempre ajudou a baixar o encargo dos meus pais porque passei a ter dinheiro para as minhas coisas. O meu marido começou a trabalhar em simultâneo com o 2º ano da faculdade e não está nada arrependido e também não foi porque os pais lhe tivessem pedido.
Admito que a minha primeira reação à reportagem foi de pena, ao ver nos olhares de alguns dos jovens entrevistados uma tristeza infinita por não ter possibilidade imediata de concretizarem o sonho de tirarem um curso superior. É verdade que ter um curso é importante, mas não me parece que deva ser o concretizar de um sonho. Deve ser, sim, um meio para atingirmos os nossos sonhos e nos realizarmos como profissionais talentosos e dedicados.
Quando a reportagem terminou senti que estes jovens que estão na universidade precisam mais de rumo do que de dinheiro. Se os pais não os podem ajudar, têm de ser eles a fazer pela vida, coisa que não me parece que muitos estejam habituados! Uma das entrevistadas dizia que lhe custa muito pensar em emigrar, mas a mim parece-me que, nas circunstâncias atuais, isso nem deveria ser um obstáculo. Em Portugal pensa-se sempre muito que os problemas que nos acontecem são catastróficos e vamos andando à volta do rabo, como os gatos, até estarmos ainda mais perdidos e desencorajados, em vez de se pensar que afinal as dificuldades atuais até podem ser um ponto de viragem. Não defendo que devamos todos abandonar o país, mas devemos fazer tudo o que está ao nosso alcance para melhorarmos a nossa própria vida!
Eu não sou a pessoa mais indicada para louvar as vantagens da universidade, porque para mim foi exatamente um meio para atingir a profissão que sempre quis ter, não foi uma época de festas e de diversão e de fazer amigos. Nunca fui de sair à noite, nem de grandes borgas, preferia estar na biblioteca do que no bar, tentava ter os trabalhos prontos a horas e esforçava-me por tirar notas razoáveis, tentava não me baldar. Portanto, como foram 6 anos de trabalho intenso não posso dizer que tenha sido a melhor época da minha vida. 
Foi bom? Sim. Cresci como pessoa? Sim. Melhorou a minha vida? Claro que sim. Deu-me a oportunidade de viver no estrangeiro e de moldar um dos meus sonhos, e só por isso já valeu a pena. Sei que seria uma pessoa diferente se não tivesse estudado ao nível superior, mas nunca é tarde para quem não tem possibilidade agora. Há cada vez mais possibilidades de se ingressar na faculdade sem ser no percurso ‘normal’ ao sair da escola. Não me parece o fim do mundo, mas não deixo de ficar pensativa sobre isto e sinto que é muito triste os pais não poderem ajudar os seus filhos…
No dia 23 foi Dia do Livro e ontem foi Dia da Liberdade, portanto só me ocorre dizer: 'Bolas para a crise que impede os nossos jovens de terem a liberdade de escolher se querem ou não traçar o seu futuro através de um curso superior!’

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Semana 18 - Parece que é Natal…

natal = sentimento
I have always thought of Christmas as a good time; a kind, forgiving, generous, pleasant time; a time when men and women seem to open their hearts freely, and so I say, God bless Christmas!  - Charles Dickens
        Sentada à mesa da cozinha a beber um capucino e uma torrada dou por mim a pensar nisto do Natal e percebi que o que gosto mesmo é dos preparativos e da expetativa, porque no fim de contas entre dia 24 e 25 as 48 horas do Natal passam depressa demais. Mesmo assim, há 4 anos que os meus Natais são passados entre famílias, temos dividido bem a conta das horas e conseguimos estar com toda a gente na noite de Natal e no dia 25. Não é preciso muita ginástica para estarmos com aqueles de quem gostamos e que gostam de nós, já que a distância é irrelevante – são poucos quilómetros, mas mesmo que fossem muitos!

        E é bom ver e saber que estão todos bem de saúde e que somos felizes juntos. Sei bem que as nossas famílias têm particularidades que por vezes são difíceis de compreender ou até de aceitar, mas tentamos lidar com isso da melhor forma possível: na minha família liga-se pouco ou nada a presentes, principalmente embrulhados (debaixo da árvore cá de casa este ano não houve um presentinho para contar a história! Bem, a minha irmã deu-me um colar lindo que não consegui deixar de abrir logo na altura. Ups!), mas na família do marido a coisa é levada muito mais a sério e há sempre presentes para toda a gente, mesmo que seja só um miminho. Eu acho piada ao gesto, mas faz-me um bocadinho de confusão porque desde que sou adulta não há o ritual da troca de prendas. A minha mãe dá-me o que eu preciso quando é preciso e não tem de ser no Natal e normalmente são objetos para a casa – este ano foi uma manta para o sofá. Nós fazemos prendas caseiras: doces, bolachas, azeite e sal aromatizados e mistura para panquecas e decoramos com o nosso melhor sorriso, uma fita bonita e já está. Um pouco de nós.

         Nós damos estes miminhos porque já sabemos que vamos receber alguma coisa, mas no meu caso nunca tenho vontade de receber nada – já disse que gosto mais de dar do que de receber? – e só há um presente que me deixa verdadeiramente feliz. Livros! (Claro que não desprezo os presentes que me dão, porque alguns são bastante úteis, mas são isso mesmo, úteis, não felizes!) Sei que todos os anos em que vivi em casa dos meus pais houve sempre este presente em comum e eu e a minha irmã adorávamos.

        Lembro-me perfeitamente de receber alguns livros da Anita – agora estão guardados no sótão à espera que apareça alguma menina na família que demonstre tanto interesse por eles como nós-, livros do Triângulo Jota, Uma Aventura, os Cinco e outros que tais. Mais crescidas, recebíamos dinheiro e quando já tínhamos juntado uma quantia jeitosa íamos à FNAC e nunca vínhamos de lá com menos de 100€ em livros. ‘Romances’, como diz a minha querida avó. E que saudades tenho desses tempos.

       Este ano não recebi livro nenhum…mas parece-me que em janeiro vou aumentar o meu espólio já que tenho uns quantos na minha lista de desejos! São caros, que são, mas eu acho que os livros são sempre um investimento e nunca é dinheiro perdido, por isso é que iniciativas como a Déjà Lu são de louvar.
        Os jornalistas conceituados da nossa praça não servem só para serem opinion makers nem para escreverem livros. Devem também – tarefa até mais importante, segundo o meu ponto de vista – divulgar e promover as boas iniciativas que ainda vão aparecendo com causas nobres, como se pode ver no caso do jornalista Pedro Rolo Duarte que no seu blog discorre sobre o estado de Portugal aos seus olhos, mas também faz referência a boas práticas que se vão fazendo por aí. Umas delas é o blog de leilões de livros que já referi, que aceita ofertas de particulares ou de autores e que depois vende essas obras por um preço simbólico. Eu achei o contexto e o objetivo tão interessantes (o valor integral das obras é entregue à APPT21 – a transferência é feita diretamente para a conta da associação) que não resisti e comprei dois livros do Pedro Rolo Duarte, autografados pelo próprio e tudo, pela módica quantia de 12! A partir daqui faço muitas questões de continuar a contribuir para esta causa. E se vou poder continuar a reforçar o meu stock de livros, tanto melhor!

         Vou continuar a fazer isso ao longo do ano, porque há sempre livros novos que quero ler, ou antigos que nunca li, mas principalmente porque ser solidário não pode ser só no Natal. Sei que as pessoas têm mais tendência para a solidariedade nesta época, porque se sentem mais generosas, mais felizes e com mais esperança como já dizia o senhor Charles Dickens, mas isso não é desculpa para não o serem também ao longo do ano. A nossa ajuda faz sempre falta, seja Natal, Carnaval, Páscoa, verão ou inverno e não é só para as associações. Muitas vezes os nossos amigos ou a nossa família precisam de nós. De nós, do nosso tempo, da nossa disponibilidade e não de presentes. Ou como cantam os Deolinda:

Diz-me lá porque que
tu te lembras de mim
quando chega o natal
porque é que só nesta
quadra é que tu reparas
se eu estou bem ou mal
diz-me lá onde é que paras
o resto do ano
eu preciso mais de ti
do que te vais lembrando
Diz-me lá porque é que tu
não me envias postais
durante o ano inteiro
Diz-me lá porque razão
é que não me dás prendas
sem ter um pretexto
diz-me lá o que te move
uma vez por ano
eu preciso mais de ti do
que te vais lembrando
diz-me lá que gratidão
é que esperas de mim
apenas por um dia
eu que espero um ano
inteiro e que tanto anseio
a tua companhia
hoje reformulo os votos
e o meu desejo
eu preciso mais de ti
do que te vais lembrando
Um feliz natal
não hoje mas um ano inteiro

Deolinda - Quando chega o Natal

sábado, 8 de outubro de 2011

Semana 16 - Ser português não é fácil, não!

blessed - disappointed
via
Há dias em que não tenho paciência nenhuma para conversa de circunstância e em que só me apetece responder torto. Tenho-me aborrecido um bocado com as perguntas insistentes de alguns dos meus conhecidos: 'Então, mas não estavas na Alemanha? E vais voltar? Quando?' E meterem-se na vossa vida, não?

Eu gosto de falar sobre a minha experiência no estrangeiro (como os meus avós dizem, porque lhes parece a uma distância impensável), mas cada vez que falo nisso fico tristíssima porque muitas vezes me apetecia muito mais lá estar, mesmo sozinha, do que estar aqui em Portugal e voltar a viver esta vidinha muitas vezes chata. Eu estou feliz por estar de volta à vida que conheço bem e às pessoas que amo, mas abrir o jornal e aperceber-me de tanta coisa que se passa por cá e que contribui para a taxa de depressão ser a 2ª maior da Europa também me deprime. Estar sozinha durante vários meses tornou-me mais imune a muitas coisas, mas a diminuição de qualidade de vida é coisa para me mexer com os nervos.

Problemas e desigualdades sociais a aumentar, qualidade de vida a diminuir assim como os ordenados e os subsídios a quem precisa. Cortes na educação e na saúde que servem os propósitos somente económicos de quem andou a esbanjar o que tinha e o que não tinha e que agora se vê a braços com os memorandos da troika para prevenir que Portugal não chegue ao estado da Grécia. No meio de tudo isto quem paga é sempre o contribuinte, que é como quem diz, cada um de nós, que vivendo de acordo com as suas possibilidades, vai ter de ver a sua qualidade de vida diminuir à medida que os impostos aumentam e o salário vai sendo cada vez menor para fazer face às despesas do governo. Esta crise que estamos a atravessar torna cada vez mais real aquela frase ‘sobra mês para o ordenado’.

Eu sei que sou muito básica nesta análise, mas preocupa-me o estado da nação enquanto contribuinte e enquanto profissional. Sou professora a recibos verdes, a trabalhar em vários sítios ao mesmo tempo porque aquela oportunidade que estava mesmo ao virar da esquina desapareceu por falta de verba. Acho muito triste que por falta de dinheiro (e sendo a má gestão também um fator possível) os alunos deixem de ter aulas. Neste caso esta situação já não será nova, mas como me afetou diretamente a mim e aos meus planos, sinto-me bastante indignada com a facilidade com que se decidem as coisas tendo em conta critérios economicistas.

Bem, se pensarmos nas condições de trabalho dos professores que lecionam no nosso sistema de ensino e no ciclo que todos os anos se repete para milhares que voltam às listas de colocação e ficam desesperados à espera de uma vaga, nem é motivo para estranhar que o concurso de recrutamento para o estrangeiro tenha sido cancelado. Costuma dizer-se ‘longe da vista, longe do coração’, o que neste contexto só me leva a questionar-me se os alunos que vivem fora de Portugal, mas que são descendentes de portugueses, serão menos importantes nesta hierarquia do ensino. Achando eu que não deveria ser assim, porque se pensarmos também em motivos económicos, ainda há muito dinheiro a entrar em Portugal vindo das nossas comunidades portuguesas que estão a construir as suas vidas e as suas famílias lá fora, já que não encontraram condições em Portugal para se estabelecerem.

Tenho em crer que se esta visão economicista continua, qualquer dia deixamos de ter portugueses lá fora. Se as pessoas na maioria das vezes já se identificam mais com os países de acolhimento, não me parece assim tão absurdo sentirem-se cada vez menos portuguesas e cada vez mais alemãs/ francesas/ venezuelanas/ canadianas ou outra coisa qualquer. Nos meses que estive fora, não me pareceu que houvesse uma adoração cega por Portugal e até se percebe porquê. Infelizmente os filhos das segundas e terceiras gerações começam a não conhecer o país de onde são provenientes as famílias, então aprender português porquê?

Para quem dá aulas e se preocupa com estas coisas, dá que pensar.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Semana 9 - Abster-se não significa que irá melhorar!

vote via

 Abstenção atinge valor recorde na história das legislativas no Público

Não era nada que já não se esperasse, mas ainda assim fiquei surpreendida pela negativa. O valor mais elevado de sempre?! Estando o país em crise profunda a vários níveis, com a troika BCE/Comissão Europeia/ FMI a governar resolver os problemas do país nos próximos anos e depois de tantas manifestações, protestos, críticas e descontentamento, acho que não se justifica isto!!

Eu não votei por razões logísticas. Cheguei cá à Alemanha em meados de Março e com tantas coisas para resolver nem me lembrei disso. Quando comecei a pensar que para votar me deveria recensear aqui, já não podia porque isso deveria ter sido feito até ao dia 6 de Abril. Desde que tenho cartão de eleitora só não votei uma vez e também porque estava aqui na Alemanha na altura.

Se estivesse em Portugal claro que teria ido votar, as usual na escola primária ao lado da minha casa e teria sido menos uma a contribuir para a abstenção. Que para não variar foi a vencedora destas eleições. Apesar de se saber que não há nunca nenhum candidato ideal - e no panorama atual ainda se torna mais difícil que isso aconteça - é sempre mais fácil assobiar para o lado e fingir que não é nada connosco, do que se tomar uma atitude. Mais que não seja para depois se poder reclamar com razão. Eu acho uma falta de respeito e de responsabilidade cívica para com o país (que no fim de contas é composto por todos nós) as pessoas só reclamarem e não fazerem nada para mudar isso. Tenho consciência que muito provavelmente o PSD iria ter mais votos, mas os partidos menos representativos também, o que ajudaria a equilibrar mais as contas.

Pelo menos há unanimidade numa coisa: a demissão do ex-primeiro-ministro da liderança do PS. Admito que noutras eleições votei nele, esperando que fizesse alguma coisa pelo país, visto que seria um rosto menos conhecido e menos permeável aos ‘amiguismos’. Afinal a personalidade e postura arrogantes, nunca admitindo erros e metendo os pés pelas mãos em várias circunstâncias não beneficiaram o país. Com certeza que houve coisas que devem ter sido bem feitas, mas muitas vezes as polémicas abafaram tudo isso.

Fico contente por saber que saiu do poder, mas como diz a Cocó também estou céptica quanto a este primeiro-ministro. No início da campanha parecia uma coisa, mas ao longo do tempo também tem dado calinadas e feito alguns erros. Estou expectante para ver como vai conseguir gerir o país nestas condições, e principalmente para ver se não vai cair nos mesmos erros do PS. E preocupa-me haver um primeiro-ministro e um presidente da República da mesma cor política.

Quanto à abstenção, acredito que com esta percentagem de não-votantes se deveria era começar a refletir sobre o ato de votar como obrigação. A meu ver, a solução, que já não é nova, passaria por instituir o voto obrigatório* e com multa caso não fosse cumprido. Se as pessoas não cumprem os seus direitos, pelos menos assim seria uma democracia mais justa, com mais participação política.

* A prática do voto obrigatório remonta à Grécia Antiga, quando o legislador ateniense Sólon fez aprovar uma lei específica obrigando os cidadãos a escolher um dos partidos, caso não quisessem perder seus direitos de cidadãos. by Wikipedia

quinta-feira, 24 de março de 2011

Semana 1 - Será este o país que queremos?

emigrar
Foto daqui
Vi este cartaz nas imagens que passaram na televisão acerca da manifestação e achei que esta frase de ordem faz todo o sentido, mas no que toca aos nossos interesses cada um sabe de si. Eu não fui à manifestação por vários motivos (que dão assunto para outro texto) e não sou extremista ao ponto de achar que só no nosso país é que estamos bem.
Obviamente que não vamos todos emigrar, porque assim ficaríamos sem país (o que não seria muito difícil, visto já estarmos sem governo) e não é isso que as pessoas querem. O que todos querem é melhores condições de vida e de trabalho, segurança para poderem fazer planos sustentados para o futuro, estabilidade financeira e um governo consciente. Nenhuma destas premissas tem estado nos patamares mínimos e as pessoas revoltam-se e manifestam-se, como se viu a 12 de Março.
Tenho a certeza absoluta que só emigra quem está mesmo no limite e não consegue as condições que acha mínimas para viver em Portugal. Os que não emigram acabam por (sobre)viver com os mínimos possíveis, muitas vezes com enormes sacrifícios, como se tem vindo a perceber nas reportagens que se vão vendo nos meios de comunicação social. A grande maioria das pessoas não quer emigrar, quer que o país melhore. Seria quase certo que se o país proporcionasse às pessoas boas condições os nossos emigrantes poderiam voltar, principalmente os nossos ‘cérebros’ que estão noutros países a trabalhar para instituições estrangeiras conceituadas. Como isso não acontece, vamos ficando cada vez mais pobres, com as pessoas capazes de mudar alguma coisa a viver no estrangeiro.
Eu adoro o meu país onde vivi 26 anos (sem estar a contar com os seis meses que já estive a viver como aluna Erasmus aqui na Alemanha), mas achei que neste momento da minha vida a melhor decisão que podia tomar seria vir viver para outro país. Em termos profissionais não havia muito que eu pudesse esperar. A trabalhar a recibos verdes em três sítios diferentes e a ganhar pouco mais que o ordenado mínimo, sem qualquer tipo de segurança, que tipo de planos para o futuro é que eu podia fazer? Ter um filho estava e ainda está completamente fora de questão.
Claro que Portugal tem muitas coisas boas e são essas coisas que quero conseguir valorizar quando regressar. Não é só a beleza do país que importa, nem a hospitalidade e a simpatia do nosso povo. Isso interessa muito para o turismo, que até se está a tornar um dos pilares da nossa economia, mas se não organizarmos primeiro a nossa sociedade, os turistas deixarão de nos visitar, porque as condições de vida do povo ainda deixam muito a desejar, comparando com os nossos vizinhos da Europa.
Há muito que se pode fazer, e não estou a dizer para tirarmos a papel químico o que se faz na Europa, mas perceber o que melhor se faz noutros países para podermos adaptar à nossa sociedade e sairmos deste poço cada vez mais fundo em que estamos. Se continuarmos neste jogo do empurra sem se chegar a nenhuma conclusão nem solução nunca mais nos endireitamos. E aí nem as nossas coisas boas nos safam…